
GT 01/ POVOS TRADICIONAIS E COLETIVOS NÃO HUMANOS
Coordenação: Ugo Maia (INUMA/PPGA/UFS) e Beto Vianna (INUMA/PPGA/UFS)
>>>> Sessão única, terça-feira, 02/12 (9h às 12h - Sala 201) <<<<
Arqueologia Colaborativa do Passado Recente na T.I. Tupinambá de Belmonte:
Memórias, Lugares e Objetos
Lucas Cunha santos, PROARQ/UFS - luccafranca@academico.ufs.br
O extremo sul da Bahia, mais especificamente a Costa do Descobrimento, é uma região marcada por violentos processos de conflitos territoriais entre agentes coloniais e populações indígenas nativas que até hoje lutam e resistem pela garantia dos seus direitos. Nesse contexto, este trabalho analisa criticamente os vestígios arqueológicos associados aos sítios históricos do passado recente dos Tupinambá de Belmonte - BA, sítios que correspondem aos locais de moradia das antigas famílias indígenas que residiam no território entre os séculos XIX e XX. Esse estudo foi feito a partir dos pressupostos da arqueologia do passado recente, com uma abordagem colaborativa, e buscou explicitar as relações entre os vestígios encontrados, o território e as memórias dos Tupinambá de Belmonte. Foi possível concluir, através desta análise insurgente e decolonial, que os materiais encontrados possuem cronologias relativas muito similares, o que leva a crer que há a possibilidade dos sítios terem sido ocupados simultaneamente e contemporaneamente. A análise também apontou para uma ocupação espacial dispersa em pequenos locais ao longo das áreas que circundam a lagoa Timiquim, o que sugere que a lagoa e seus arredores foram utilizados como local de refúgio para essa comunidade em um momento de conflito, configurando uma estratégia de resistência frente às opressões e violências do colonialismo na região em foco. Essas interpretações condizem com as narrativas orais dos Tupinambá, elementos fundamentais nesse estudo que visou a construção de um conhecimento arqueológico que relega o mesmo grau de importância a elementos materiais e aos imateriais.
Cozinhas xamânicas
Gabriel Rodrigues, PPGA/UFS - gabo.sertao@gmail.com
Em minhas pesquisas etnográficas junto a comunidades de fundo de pasto e no distrito de Pilar, na caatinga da Bahia, deparei-me com o que chamo de culinárias predatórias – práticas alimentares que desestabilizam o “eu” e transformam radicalmente a condição humana. Se Caipora oferece como comida alguns carrapatos (para o caçador) | licurí (para ela) e o Bicho sua urina (para o caatingueiro violento), o rezador dá sua palavra (a seus caçadores). Comer aqui não é um ato de manducação biológica, cultural ou simbolicamente determinado, mas um ato xamânico de transformação radical, uma culinária anti-banquete, feita para, ao mesmo tempo, produzir consubstanciais e para dissociá-los da humanidade: seja porque caçador avarento pode virar-Caipora, caatingueiro violento pode virar-Bicho, seja porque policiais, mesmo sendo humanos, não veem o mundo como um humano comum o faria. A partir do material etnográfico caatingueiro poderia dizer que a comensalidade (com Caipora), a licantropia urofágica (com o Bicho) e o se envultar ou mexer nas vistas com oração forte (com o rezador) são modos cosmo-culinários mais-que-humanos para revelar o outro lado do corpo humano, ao ativar outro ponto de vista no humano. Logo, a “cozinha xamânica” pode ser tomada como arte da predação, pois além de ser um espaço material-simbólico onde se determina quem detém o ponto de vista em uma relação, é uma técnica de produção do sujeito como pessoa outra, dado que na caatinga, como alhures, a humanidade é uma condição instável, sujeita à ação de outro. Essas culinárias cosmodivergentes, cozinhas que rasgam o eu, texturas que despertam o tempo do mito que ainda não passou etc. operam como diacríticos, marcando a diferença entre os “caatingueiros” (autodeterminação) e o “povo- da-rua” (urbanos). Ademais, podem ser agenciadas como marcadores étnicos no processo de (auto)identificação como “índio em geral” frente ao Estado brasileiro de uma
comunidade “sertaneja” em particular.
Do leme ao Pontal, ou da criação de um maretório
Henrique Maia d’Avila, Bacharel em Biologia – UFS. Ambientec Soluções Sustentáveis
Nenhum pescador faz-se ao mar sem planejamento; é necessário organizar provisões, verificar motor e velas, petrechos de pesca e ferramentas, certificar-se de que o barco e todos seus componentes estão em ordem. Inserido e atuando no mundo-tempo, o pescador precisa não apenas planejar sua viagem com precisão, mas também ler sua paisagem. Assim, o dia e época de fazer-se ao mar será determinado tanto pelo vento, pelas ondas e pela maré, quanto pela leitura que o marítimo faz desses elementos baseada em suas experiências prévias. No que pese um minucioso planejamento para a navegação segura e a bem-sucedida pescaria, uma vez no mar, é a experiência vivida e atenta do marinheiro que assegurará seu sucesso. Assim, a cada verão os pescadores da comunidade quilombola de Pontal da Barra, no litoral de Sergipe, lançam-se ao mar, aproveitando os ventos favoráveis de nordeste e o mar calmo da estação, em uma expedição de pesca paralela à costa, até o norte da Bahia e de volta. Realizam uma navegação costeira, com a terra quase sempre à vista e, por meio da navegação por marcação, encontram seus pesqueiros e pontos de acessos aos estuários e praias onde se hospedam brevemente. Este estudo busca compreender como, inscrevendo histórias e significados na paisagem costeira e estuarina, traçando linhas de percurso, habitam seu mundo; como, sentindo as mudanças no vento e no horizonte, regulam suas velas, tocam seus lemes e vivenciam o mar e as praias, enfim; como os pescadores de Pontal da Barra constroem, perpetuamente e a cada verão, seu maretório (conceito da geografia que será discutido face à concepção ingoldiana de paisagem). Ameaçados por projetos de exploração de petróleo e de geração de energia, que impedem ou dificultam o acesso aos recursos pesqueiros, compreender como se dá a construção do maretório desta comunidade é fundamental para avaliar os impactos que sofrerão advindos destas atividades e poder reivindicar seus direitos como povos tradicionais.
Os Pankararés de Brejo do Burgo: Trajetórias e memórias na luta pela terra
José Eraldo Neves Ribeiro, Mestre em Antropologia pela Universidade Federal de
Sergipe e professor da rede Estadual de educação de Sergipe -SEED/SE.
Inserido num contexto de estudos sobre etnogênese indígena no sertão do São Francisco bem como sobre processo de construção de identidade étnica, esse texto visa apresentar um esboço acerca de trajetórias e memórias da luta pela terra, resistência, e reconfiguração cultural dos pankararés de Brejo do Burgo-Glória/BA (1960-2025). Toma como embasamento empírico dezesseis entrevistas semiestruturadas que tivemos a oportunidade de realizar na terra acima citada. O acervo documental da Associação Nacional de Ação Indigenista (ANAÍ-BA), disponibilizado em sua página na rede mundial de computadores, também foi considerado como fonte essencial nessa pesquisa, por conter atas, memorandos, memoriais descritivos, relatórios técnicos, artigos jornalísticos, decretos e portarias sobre pankararés de Brejo do Burgo. Também utilizamos relatórios anuais de gestão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e de relatórios e notas técnicas da Fundação Nacional do Indio
(FUNAI), quando esses fizeram referências à terra Indígena pankararé Brejo do Burgo. A
partir dos resultados obtidos levantamos alguns questionamentos acerca da situação dessa
T. I no momento presente.
Lobisomem: signo e estigma
Ugo Maia Andrade, Iasmin Maisa Bira Cardoso da Silva, Carolaine Santana Oliveira
Almeida e Marcus Vinicius Oliveira da Cruz (DCS-UFS) ugomaia@academico.ufs.br ;
chapolina@academico.ufs.br;csoliveira13@academico.ufs.br;marcusviniciusoliveiradacruz7@gmail.com
Esta comunicação foca - com base em etnografia realizada no interior de Sergipe no ano de 2024 - o lobisomem como signo na forma de um estigma social que mobiliza a exclusão de valores ideais do acusado de licantropia, garantindo seu controle social por meio da produção/imputação de atributos depreciativos em uma “linguagem de relações” (GOFFMAN, 2003, p. 13). Tal linguagem permite que o acusado de licantropia seja visto como alguém não “completamente humano” (ib., p. 15) cujas ações evocam a transgressão de tabus, recorrendo à mesma lógica dos insultos verbais que fazem uso de categorias animais (LEACH, 1988).
Assistência Estudantil Indígena: notas em perspectiva comparada entre Brasil e
Canadá
Josué Felipe Silva Maia (IF-MA/UFBA/University of Toronto)
O trabalho ora proposto realiza uma análise comparativa das políticas de assistência estudantil voltadas para povos indígenas no Brasil e no Canadá. O recorte decorre da experiência adquirida em recente estágio doutoral na cidade de Toronto, onde desenvolvi investigação entre as ações do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) e a atuação da First Nations House, órgão vinculado à University of Toronto. Para além das diferenças previsíveis entre um país situado na periferia e outro no centro do capitalismo global — como limitações de infraestrutura e restrições de aporte financeiro — a pesquisa evidenciou questões igualmente relevantes. Entre elas, destacam-se as dissonâncias quanto ao perfil de formação que se pretende oferecer ao estudante indígena em contexto urbano. No Canadá, observa-se uma institucionalização mais consolidada, em que acadêmicos aborígenes são frequentemente direcionados para ambientes corporativos e incentivados a assumir perfis de “líderes organizacionais”. Seus currículos, por exemplo, são moldados em plataformas como o LinkedIn, em consonância com uma lógica neoliberal de gestão de si. A comparação entre os dois contextos revela que, embora ambos os países busquem ampliar o acesso e a permanência de estudantes indígenas no ensino superior, os caminhos trilhados diferem substancialmente. No Brasil, ainda prevalece a luta por condições básicas de permanência e reconhecimento cultural, enquanto no Canadá a ênfase recai sobre a integração a modelos de liderança corporativa. Essa tensão evidencia que políticas de assistência estudantil não apenas refletem desigualdades estruturais, mas também projetam visões distintas sobre o papel do indígena na sociedade contemporânea. Ao trazer à tona essas diferenças, o trabalho busca contribuir para o debate antropológico acerca das formas de inclusão e dos limites impostos pela lógica neoliberal às trajetórias acadêmicas indígenas.
Caminhando com a muda: a criança como guia na percepção do ambiente
Tupinambá
Danilo Ramos Rodrigues (PPGA-UFS) danilogo@academico.ufs.br
Esta comunicação apresenta o processo de uma pesquisa em andamento, partindo de uma
breve, porém densa, experiência de campo entre os Tupinambá da Serra do Padeiro (BA). Com intuito de refletir sobre o trabalho de campo, primeiramente, coloco algumas proposições em pauta: o ser afetado (Favret-Saada, 2005), a fórmula da redução enquanto postura de admiração pelo mundo (Merleau-Ponty, 1999), e na retomada do espanto como forma de reanimar o pensamento (Ingold, 2015). A estes, acrescento a necessidade de “se deixar ser guiado”, uma postura que emergiu da própria interação em campo. Ao buscar compreender a transmissão de saberes, deparei-me com uma inversão instrucional vinda de um tronco velho: Têdi me alertou que eu poderia ser iludido por ele ou qualquer outro adulto por eu ser um estudante, e indicou que a verdadeira aula estaria com as crianças, e que esses não falseiam a vivência. Essa instrução, expressando um desvio do olhar, fez com que eu lembrasse de como fui conduzido por Yakenã, de oito anos. Uma criança que não apenas narrou, mas performou o conhecimento: transformou a cozinha em terreiro e uma colher em maracá, demonstrando que a defesa territorial e a cosmopolítica Tupinambá se aprendem através de um engajamento corporal direto com o ambiente. Discute-se, portanto, como a noção nativa de crescer na origem articula a formação da pessoa e a garantia do território como processos indissociáveis. Essa breve experiência evidencia como a criança atuou como guia, revelando que a sintonização com o mundo é, antes de tudo, experiência encarnada da qual o pesquisador se aproxima ao despir-se de sua posição de saber.
Educação Patrimonial e o Pensamento Antropológico na Arqueologia de
Contrato: O Caso do Gasoduto Terminal Sergipe
Gustavo Cabral Marins - Educador Social na Ambientec Soluções Sustentáveis
O presente trabalho tem como objetivo relatar os resultados e as discussões do Programa Integrado de Educação Patrimonial (PIEP), executado na área de implantação do Gasoduto Terminal Sergipe, nos municípios de Barra dos Coqueiros, Santo Amaro das Brotas e Rosário do Catete, em Sergipe. Para tal, o estudo desenvolve uma análise que situa a Educação Patrimonial (EP) na perspectiva do pensamento antropológico, destacando-a como um vetor fundamental para a valorização, preservação e difusão do Patrimônio Cultural. Sob essa ótica, o PIEP buscou fomentar o senso de pertencimento e a guarda compartilhada dos bens culturais entre a população local e os participantes do projeto. A metodologia empregou uma abordagem diversificada e segmentada, utilizando ferramentas pedagógicas como palestras, oficinas temáticas (e.g., pintura rupestre), rodas de conversa e exposições de vestígios arqueológicos, direcionadas à comunidade escolar, órgãos públicos e aos trabalhadores do empreendimento. Os resultados demonstraram que a intervenção da EP, quando estrategicamente integrada a grandes obras, pode transcender o mero cumprimento de exigências legais. O programa estabeleceu uma base sólida para o engajamento social efetivo e para o desenvolvimento de uma consciência patrimonial local robusta, reconfigurando a relação entre a comunidade e os trabalhadores, que se tornaram parceiros ativos na proteção e identificação do Patrimônio Arqueológico regional.
Quando as Folhas Falam: Zefa da Guia e a Força Ancestral das Religiões Africanas nas Américas
Marcelo Paulo de Argolo Lima (UFAL)
João Mouzart de Oliveira Junior (UFS)
As folhas eram selecionadas por Zefa da Guia segundo critérios de espécie e função ritual, e seus preparos, como banhos, infusões, seguiam procedimentos geracionais transmitidos por mulheres negras, cada quais voltados a dimensões específicas do corpo físico e espiritual. Narrativas com as folhas revelam camadas de memória, cura e cosmologia nas religiões de presença africana nas Américas. Este trabalho analisa a centralidade dos saberes vegetais na atuação de Zefa da Guia, compreendendo as folhas como tecnologias ancestrais que articulam cuidado, proteção e continuidade histórica. As práticas observadas incluem plantio, colheitas precisas, rezas, defumações e gestos que organizam vínculos entre humanos, ancestrais e forças da natureza. Os saberes mobilizados por Zefa da Guia evidenciam uma epistemologia afro-diaspórica transmitida que preservam um repertório cosmológico sobrevivente ao sequestro colonial. As folhas manifestam força própria e participam da recomposição de corpos, ambientes e relações comunitárias. O estudo evidencia como esses saberes se atualizam em um cenário marcado por tensões políticas, racismo religioso e processos de invisibilização, indicando que a resistência cotidiana se expressa tanto no gesto ritual quanto na preservação silenciosa das tradições. Essa atualização revela que os saberes das folhas permanecem ativos na condução do cuidado e na sustentação das práticas que organizam o cotidiano dos quilombos. A análise demonstra que Zefa da Guia encarna uma pedagogia do cuidado e da ancestralidade que reafirma a vitalidade das religiões afro-atlânticas. Portanto, suas folhas falam porque acionam presenças, articulam memórias e mobilizam uma cosmopolítica negra que reorganiza a vida coletiva, fortalecendo redes de solidariedade e afirmando pertencimentos diante das camadas persistentes da colonialidade.
Palavras-chave: Religião de presença africana; Saberes das folhas; ecologias afro-diaspóricas.