
GT 04/ VISUALIDADES INSUBMISSAS: ARTE, IMAGEM E ARQUIVOS
Coordenação: Marina Cavalcante Vieira (PEIA/PPGA/UFS) e Marcos Alexandre dos Santos
Albuquerque (PPCIS/PPGHA/UERJ)
Debatedor: Luíz Gustavo Pereira de Souza Correia (PPGA/UFS)
>>>> Sessão 1, quarta-feira, 03/12 (9h às 12h – Sala 208) <<<<
>>>> Sessão 2, quinta-feira, 04/12 (9h às 12h – Sala 208) <<<<
SESSÃO 1 - ARTE E E OUTROS EXPERIMENTOS
ANDANÇAS, MONTAGENS E OUTRAS VISUALIDADES NA VIDEOPERFORMANCE
VAMOS CHAMAR O TEMPO
Débora Arruda, artista e pesquisadora
Layla Bomfim, mestranda em Antropologia (PPGA/UFS)
Nesta comunicação refletimos sobre práticas e relações imagéticas forjadas por artistas- vagalumes, inspiradas na leitura de Didi-Huberman (2011), para quem lampejos produzidos nas margens resistem ao excesso de luz hegemônica e constituem contravisualidades que escapam ao “reino” das representações dominantes. Dessa forma, tomamos como eixo comum a obra Vamos Chamar o Tempo, uma vídeo- performance que atravessa nossas trajetórias e condensa preocupações estéticas e políticas. Na perspectiva de Débora Arruda, performer da obra, discutimos conceitos desenvolvidos a partir do processo, sobretudo andança e desaprendizagem, compreendidos como metodologias corporais que apostam na deriva e na recusa de um saber técnico disciplinado. Já na reflexão de Layla Bomfim sobre a montagem, examinamos a dinâmica entre materialidades-em- performance e edição audiovisual, entendendo a montagem como espaço de fricção entre arquivo e abertura criativa, em sintonia com debates da antropologia visual contemporânea (Álvarez; Athias; Rivera, 2023; Marcus, 1995; Schneider, 2021). Argumentamos, por fim, que a feitura da obra manifesta visualidades insubmissas, pois emerge de relações estético-políticas que se contrapõem à uma noção de estetização do cotidiano, apostando antes em um cotidiano estético, onde vida, criação e política não se separam.
Palavras-chave: montagem; videoperformance; antropologia visual;
A ARTE TAMBÉM MATA
Hugo Marcelo Ferreira De Deus Lima, Graduação em História da Arte (UFRJ)
Essa comunicação, atualmente em sua fase inicial de gestação e delineamento teórico, se propõe a uma reflexão crítica e aprofundada sobre a intrínseca relação entre a nomenclatura
“obra de arte” e o seu inegável poder de esvaziamento de significados originais, culminando
na alienação sistemática de objetos e fazeres de suas matrizes culturais e contextuais. A problemática central reside em questionar a neutralidade da categoria estética imposta pelo sistema ocidental. Para fundamentar essa análise, partimos do influente pensamento do antropólogo Alfred Gell, que propõe uma perspectiva radicalmente diferente: a de que o objeto de arte deve ser compreendido primeiramente como um agente social e político. Na visão de Gell, a arte não é meramente um objeto de contemplação passiva, mas sim um complexo sistema de intencionalidade que exerce causalidade e media relações sociais dentro de uma rede de agência. Essa lente nos permite examinar o impacto ativo que a classificação exerce sobre o objeto classificado. Paralelamente, a robustez desta reflexão é potentemente evidenciada no documentário “As Estátuas Também Morrem” (1953), dirigido por Chris Marker e Alain Resnais. A obra cinematográfica expõe de maneira pungente a violenta descontextualização dos objetos e artefatos provenientes do vasto continente africano. Esses artefatos, originalmente carregados de funções rituais, religiosas e utilitárias dentro de suas comunidades de origem, são abruptamente reclassificados e inseridos no universo museológico e mercantil ocidental. Ao serem rebatizados como “obras de arte” (ou, pior, “arte primitiva”), esses objetos são não apenas deslocados geograficamente, mas, de forma mais insidiosa, ressignificados a partir dos termos, categorias e valores estéticos do colonizador. Esse processo representa uma dupla violência: a material (o roubo) e a epistêmica (o apagamento do sentido original). A reclassificação oculta, sob o manto da "estética universal", a história de espoliação e dominação cultural. Como estudo de caso, destaco o assentamento de Ogum da coleção Zaira Trindade, em exposição no circuito de longa duração do Museu Histórico Nacional.
“NÃO SÓ A GENTE GRITA”: INFLEXÕES SOBRE A ARTE POPULAR
Darllan Neves da Rocha, Doutorando em Antropologia (PPGSA/UFRJ)
O reconhecimento de Mestre Vitalino como o artista popular brasileiro impactou o campo artístico e político, como a “descoberta” de uma arte “genuinamente” brasileira e como elemento para construção de uma identidade nacional. A partir da trajetória de Vitalino e de suas criações, retratando situações de sua realidade social em miniaturas em barro, podemos
perceber a consolidação da Arte Popular brasileira enquanto lugar de representação do Brasil,
de seu povo e de suas realidades sociais. Seu estilo figurativo, sob a égide da tradição, são seguidos por seus conterrâneos que, na comunidade artesã do Alto do Moura (Caruaru/PE), criam temas inspirados em novas situações sociais ou mesmo inovam com outros estilos, mas
sempre representados como arte popular. Mas o que ocorre quando estas pessoas buscam ser reconhecidas apenas como artista? Qual a distinção entre arte e arte popular? E o que de fato caracteriza a Arte Popular e significa ser artista popular? Estas questões foram provocadas pela comunidade, durante minha pesquisa de doutorado, e apontam para uma recorrente tratativa sobre suas obras e sua representação, sobretudo, ao intentarem acessar espaços de prestígio do campo artístico. Assim, neste trabalho pretendo apresentar uma análise sobre a consolidação da Arte Popular como lugar de subalternização artística, partindo da trajetória do Mestre Vitalino e de situações sociais vividas pela comunidade. Afinal, como provoca a antropóloga Guacira Waldeck (2002), “revelamos Vitalino e seu bonecos de barro ou somos revelados por ele em nosso anseio (nosso do Museu, claro) de representar o povo em fragmentos em miniatura?”.
Palavras Chave: Arte Popular; Identidade Brasileira; Alteridade.
BEBO JUREMA E MERGULHO NO RIO QUE HÁ EM MIM: ETNOGRAFIA DO RITUAL NEOXAMÂNICO COM JUREMA SAGRADA NO SEMIÁRIDO ALAGOANO
Bruno Marques da Cruz, Mestre em Antropologia (PPGA-UFS)
Trata-se de um estudo etnográfico em torno do ritual da Jurema Sagrada realizado no terreiro do centro espiritualista Aldeia Luz da Floresta, localizado às margens do Rio São Francisco, no povoado Vila Moxotó, em Delmiro Gouveia, semiárido alagoano. Este trabalho apresenta uma análise descritiva da ritualística a partir do protagonismo da cabocla/xamã que lidera o grupo e desenvolve vivências espirituais e terapêuticas na linha neoxamânica, com uso do chá da Jurema “contemporânea” — bebida mágica enteógena preparada com as entrecascas das raízes da Jurema-Preta (Mimosa tenuiflora) e Arruda da Síria (Peganum harmala). Envolvido por uma performance e metodologia próprias, o rito apresenta uma simbologia que consiste no cruzamento entre elementos da religiosidade indígena e africana (afro-indígena), esotérica, traduzidos a partir de uma cosmologia que envolve a terapêutica da musicalidade, contribuindo para o campo de estudo sobre etnografia do Neoxamismo Rural Nordestino. O estudo investiga a prática ritual da Aldeia Luz da Floresta, com particular atenção para a trajetória de Nilma Carvalho. Sua identidade como mulher indígena, sua migração da Amazônia/Pará para o semiárido e sua reconexão com a Jurema personificam a síntese que o ritual representa. O texto a posiciona como uma liderança que articula saberes ancestrais em um formato contemporâneo. A pesquisa etnográfica confere uma dimensão inovadora, combinando o método etnográfico com a experiência pessoal do pesquisador e juremeiro, membro do grupo, a partir da observação participante durante as cerimônias ritualísticas. A pesquisa qualitativa envolve entrevistas, fotoetnografia e pesquisa documental. O trabalho apresenta fundamentação teórica com incorporação de autores clássicos e atuais, abordando a teoria antropológica sobre simbolismo, a eficácia dos rituais, a cultura de plantas enteógenas e as transformações do Xamanismo na contemporaneidade. A discussão aborda o fenômeno da Jurema na região do semiárido, suas transformações simbólicas e científicas, além do impacto socioambiental, geográfico e cultural, por se tratar de uma pesquisa realizada na paisagem do bioma caatinga, onde o Rio São Francisco (Opará) é um elemento central para a sobrevivência da região, tornando-se cenário de disputa e conflitos ocasionados pelas construções de usinas hidrelétricas da Chesf com as populações que habitam no território das suas margens, enriquecendo a análise antropológica do espaço geográfico onde se realiza a prática ritual, e representa um ponto forte ao estudo, contribuindo para o debate atual sobre estudos de rituais, espiritualidade, bem como etnobotânica e práticas espirituais urbanas.
Palavras-chave: Jurema Sagrada; Neoxamanismo; Rio São Francisco.
APROXIMAÇÕES ENTRE ETNOGRAFIA E FOTOGRAFIA: AS IMAGENS DE JOÃO TEIXEIRA LÔBO EM PERSPECTIVA
Mileny Santos Xavier
Este artigo, ligado à Antropologia Visual, visou identificar em que medida as fotografias de João Teixeira Lôbo em Itabaiana (SE) entre os anos de 1910 e 1950 se aproximam de um olhar etnográfico. Para alcançar o objetivo proposto, analisou-se, à luz de conceitos e aspectos antropológicos, tanto o ato fotográfico quanto o conteúdo das fotografias, sendo que a análise das imagens foi baseada na metodologia de Boris Kossoy (2012). A fundamentação bibliográfica esteve ligada, principalmente, em Santos (2011, 2014), Achutti (1997), Caiuby (2005, 2009), e Eckert e Rocha (2019, 2020), os quais discutem sobre o fotógrafo e a relação imagem e antropologia. Por fim, concluiu-se que, mesmo João T. Lôbo não sendo um etnógrafo, o seu olhar e as suas fotografias se aproximaram de uma prática etnográfica, ao passo que houve uma busca em representar o outro imerso em seu meio social e nas significações construídas.
Palavras-chave: Etnografia; Fotografia; João Teixeira Lôbo.
FAZER CINEMA EM SALA DE AULA: UMA ETNOCARTOGRAFIA DE IMAGENS INSURGENTES NUMA FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA
Stephany Silva Tonin de Barros (Graduanda em Psicologia/UFS)
Renata Marques Ramos do Nascimento (Graduanda em Psicologia /UFS)
Marcos Ribeiro de Melo (Doutor em Sociologia/Professor do Departamento de
Psicologia/UFS) marcos_demelo@academico.ufs.br
Podem imagens cinematográficas desestabilizar sentidos cristalizados sobre educação numa formação em Psicologia? O modelo clínico-assistencial e individualizante, inspirado na lógica médica de diagnóstico e tratamento, ainda é a principal referência de intervenção, reforçada pelos discursos de medicalização e de judicialização das questões escolares. Entendendo a necessidade de reinventar as práticas psicológicas, essa pesquisa em andamento aposta nas imagens insurgentes do cinema como possibilidade de estranhar a educação, estremecendo as certezas sobre ela. Para a produção de dados, inspiramo-nos na etnocartografia de tela, abordagem que combina a atenção cartográfica com o estudo de mídia na Antropologia e analisamos dois filmes forjados com dispositivos fílmicos, operadores político-metodológicos que, para além de serem procedimentos de filmagens que estabelecem por um lado um conjunto de limites e regras que fazem pensar sobre a imagem a ser filmada, devem também ser entendidos como mobilizadores de processos de criação, que se colocam no entremeio subjetividade, arte e vida. Com o dispositivo “História de uma professora”, entramos em contato a história de Maria Joseane, que relata sua relação de afeto com a professora, a escola pública e suas dificuldades de permanência na década 1980. Em contraponto, no filme-carta de Camila, a mensagem imagética se direciona para ela própria durante seu ensino básico e expõe um modelo de ensino neoliberal baseado no desempenho e competitividade. As análises preliminares apontam os impactos das atuais configurações de controle e obediência na escola, marcada pela mercantilização do ensino numa perspectiva empresarial que se estende para a própria vida, mas também a constituição de uma política da amizade entre professora e aluna, experiência que estremece as marcas de exclusão e perpetuação da desigualdade da escolarização. A decupagem dos curtas-metragens evidencia a potência pedagógica do cinema como instrumento sensível de reflexão e produção de atenção ao mundo.
Palavras-chave: cinema; dispositivo fílmico; etnocartografia de tela
O ABC DA VIDA COTIDIANA: PROJETO GRÁFICO DE MATERIAL DIDÁTICO COMPLEMENTAR VOLTADO À ALFABETIZAÇÃO DE IDOSOS
José Carlos Emílio dos Santos, Graduando em Design Gráfico (UFS)
O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Design teve como objetivo desenvolver um material didático impresso voltado à alfabetização de idosos, fundamentando-se na compreensão do contexto do alfabetizando e na perspectiva de uma educação crítica. Para isso, o projeto estabeleceu diálogos com a EJAI da Escola Municipal Ana Nery, em Itapicuru, Bahia, permitindo uma aproximação prática com a realidade educacional para além da teoria. A pesquisa adotou caráter exploratório, descritivo e participante, tendo Paulo Freire como principal base teórica e orientando-se por sua proposta pedagógica. Foram realizados procedimentos de pesquisa bibliográfica para aprofundar aspectos da educação brasileira, com foco na EJAI, na acessibilidade comunicacional, na educação enquanto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, no conceito de designer cidadão e nos princípios do design editorial. O método aberto foi utilizado como direcionador do processo de elaboração do projeto gráfico. Como resultado, produziu-se um material didático complementar à alfabetização de idosos, explorando formatos e processos de caráter experimental que possibilitam a criação de pontes de diálogo entre professores e estudantes. O material desenvolvido articula design, cultura, arte e educação, contribuindo para promover rupturas na educação brasileira e para fortalecer a posição do idoso como sujeito ativo e pleno no exercício de seu direito à educação.
Palavras-chave: Alfabetização de Idosos; Paulo Freire; Design Editorial.
SESSÃO 2 - IMAGENS INSURGENTES
“A CATEGORIA É: REALIDADE BUTCH QUEEN” ENSAIO AUTOETNOGRÁFICO E VISUAL ACERCA DE “MASCULINIDADES” DENTRO DA CULTURA BALLROOM
Clistenes Emanuel da Silva Costa, Mestrando em Antropologia (PPGA/UFS)
A cultura Ballroom é um interesse latente na minha jornada e pesquisas desde 2015, e é originária de comunidades afro-americanas e latinas de Nova York nas décadas de 1980 e 1990 (Bailey, 2009), e que se populariza no Brasil na década de 2010, a partir de grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília (Nalin, 2023). Aqui busco compreender como as concepções de masculinidades afetam um corpo homossexual e pardo e constrõem suas noções de subjetividade e performatividade dentro do âmbito interno e externo a Ballroom. Nela, existe um de sistema gênero muito bem delineado baseado nas performances durante os Bailes dentro da comunidade e as experiências relacionadas a sociedade em larga escala (Bailey, 2013). Dentro da categoria de Butch Queens, que é a que me encaixo enquanto gay e homem cis, existiriam as Butch Queens Up in Pumps, as que utilizam o salto alto, revelando que a mesma é uma categoria que brinca muito com as noções de que se teriam de masculinidade e feminilade dos sujeitos. A partir de uma Autoetnografia, alinhada a um análise que se debruça em um acervo de imagens, é possível perceber aquilo que Foucault (1979) e Bailey (2013) indicam sobre valores e as moralidades construção dos sujeitos e sobre performatividade dentro da Ballroom, colocando a figura do salto alto como centro da análise e seu simbolismo enquanto figura de feminilidade para corpos masculinos, conversando com o conceito de Balandier (1980), do poder enquanto um sistema dinâmico, com manifestações no cotidiano. Desta forma, é possível notar que mesmo ambientes supostamente disruptivos como a Cultura Ballroom podem continuar a reproduzir estruturas de autoridade, trazidas do Estado em um processo em constante construção, influenciado por correlações de forças entre diferentes classes sociais, etnias e gêneros, mesmo considerando que a cultura Ballroom emerge como uma forma de resistência simbólica, sobretudo para corpos historicamente marginalizados.
Palavras-Chave: Masculinidades, Ballroom, Performatividade
ENTRE IMAGENS E NARRATIVAS DA SUJEIÇÃO: A CONSTRUÇÃO ARTÍSTICO-MUSICAL DA EMERGÊNCIA QUILOMBOLA NO CAMPO DO CRIOULO
Bruno Auderlin dos Santos Carvalho, mestrando em Sociologia (PPGS-UFS)
brunoauderlin@academico.ufs.br
A presente discussão nasce do anseio em compreender as condições sócio-históricas de emergência da luta quilombola da comunidade Campo do Crioulo, localizada na cidade de Lagarto-SE. A hipótese desse trabalho é que o processo de reivindicação quilombola foi operado através da construção de visualidades e imagens insurgentes. O objetivo é compreender que essa insurgência tensiona o dispositivo arquivístico produzido pelos meios de comunicação lagartense. Partindo das reflexões de Saidiya Hartman acerca da fabulação crítica é possível (re)construir uma narrativa com, contra e para além dos dados oficiais. A análise é ampliada ao escapar da restrição imposta pelas lacunas e silenciamentos dos arquivos. O desejo também é reimaginar e observar os belos experimentos produzidos pelas estratégias de resistência do Campo do Crioulo, excedendo a gramática arquivística. Ao trabalhar contra e para além do discurso oficial sobre o Campo do Crioulo, encontrei diversos rastros de informações por meio do blog RusticRural, das redes sociais da comunidade, bem como os discursos do artista plástico Gildécio Costaeira e as demais lideranças. O resultado parcial desse trabalho possibilita visualizar a construção da emergência quilombola, manifestada no registro não-oficial e reatualizada artístico-musicalmente, marcada por um horizonte geracional de luta pela defesa da memória diaspórica.
Palavras-chave: Fabulação Crítica; Imagens; Campo do Crioulo
QUANDO O OLHAR DEFINE O CORPO: AS REPRESENTAÇÕES DE XICA DA SILVA PELA LENTE DO PODER
Júlia Gomes da Silva Alcântara, Graduanda no Bacharelado de Ciências Sociais (DCS/UFS)
Essa pesquisa insere-se no campo da antropologia visual e propõe analisar as representações
discursivas e simbólicas presentes no filme Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, com foco na construção da personagem feminina negra e nos processos de estereotipagem que a atravessam. Partindo da hipótese de que o cinema atua como veículo ativo na produção e reprodução de sentidos sociais, a pesquisa busca compreender de que forma a hipersexualização, a infantilização e outras formas de redução identitária presentes na obra contribuem para a manutenção de ideologias raciais e de gênero. A investigação combina análise fílmica e discursiva, juntamente com análise documental, orientando-se por referenciais do feminismo negro e por teorias da representação. Essa problematização torna-se ainda mais relevante quando situada no contexto brasileiro, marcado por uma herança escravocrata e por estruturas persistentes de desigualdade. Ao longo da história do país, as representações da população negra — e, em especial, das mulheres negras — têm sido frequentemente moldadas por estereótipos que as reduzem a papéis sexualizados, subalternos ou exóticos, contribuindo para naturalizar relações de dominação. Assim, o estudo de Xica da Silva permite compreender como determinadas imagens e discursos construídos no cinema dialogam com essa longa tradição de racialização e desigualdade, atualizando e reforçando significados que permeiam o imaginário social brasileiro.
Palavras-chave: Xica da Silva; Estereotipagem; Feminismo Negro; Representação; Cinema
Brasileiro.
A MERCEARIA NA INTERSECÇÃO CASA-RUA: DESCRIÇÕES DAS SOCIABILIDADES DE UMA IMAGEM PERIFÉRICA
David Ribeiro Correia, Graduado em Artes Visuais (DAVD/UFS)
A presente pesquisa busca contemplar questões como raça, representação e identidade em bairros que compõem as margens da cidade de São Cristóvão-SE. Abordando na periferia o processo de criação das mercearias, enquanto fenômeno estético, que ocorre dentro de ciclos familiares e busca simular articulações vendedor-consumidor sob tratativas informais, criando novas maneiras de existir. A construção teórica busca apanhar o quadro geral da antropologia na virada do século XIX-XX, de maneira que se observe as implicações sobre representação e posteriormente o uso de uma antropologia interpretativa (Geertz, 2008), como chave para acessar o campo através das contribuições críticas de Roberto Da matta(1929). Os processos metodológicos são baseados nos percursos da etnografia, com uso de fotografias, entrevistas, desenhos etnográficos e diálogos que se juntam à vivência de cinco anos residindo no local. Busca-se aqui dados e imagens que corroboram para a construção do mosaico cultural do Estado sergipano e de uma antropologia visual brasileira.
Palavras-chave: Periferia, Representação, Estética de Mercearia.
DENEGRINDO O FASC: A CIDADE DE SÃO CRISTÓVÃO RASURADA POR INSURGÊNCIAS NEGRAS
Wheber Mendes dos Santos, Doutorando em Educação (PPGED-UFS)
Este trabalho analisa como o Festival de Arte de São Cristóvão ressignifica o espaço urbano ao tornar visíveis disputas históricas marcadas pela colonialidade e pelos arquivos coloniais que moldam o presente, conforme problematizado por Saidiya Hartman. A partir de Foucault, Certeau, Pinto, Kilomba, Nascimento e Santos, compreende-se que o festival ativa ruas, becos e zonas historicamente invisibilizadas, revelando que o território segue estruturado por desigualdades raciais herdadas do período colonial. A pesquisa observa especialmente o lambe-lambe como dispositivo estético-político que ocupa muros e fachadas para produzir narrativas visuais insubmissas, capazes de tensionar silenciamentos e reinscrever memórias negadas. As mostras artísticas de Laize Rosendo, Daniela Almeida, Turvi e Lucas Lemos funcionam como intervenções críticas que enfatizam a produção de subjetividades negras e contestam padrões hegemônicos de visibilidade, pertencimento e representação. Fundado em revisão bibliográfica e na cartografia, o estudo busca compreender como essas expressões artísticas e corporais reconfiguram sentidos do espaço público, operando como práticas de resistência que confrontam mecanismos coloniais de controle, apagamento e contrabando de subjetividades.Conclui-se que o festival articula arte, território e memória para instaurar um espaço de disputa, invenção e insubmissão, no qual a cidade é continuamente reinterpretada pelos corpos, imagens e performances que a atravessam, convertendo-se em campo vivo de enfrentamento às persistências do arquivo colonial.
Palavras-chave: Festival de Arte de São Cristóvão, insubmissão, colonialidade.
A IMAGEM DO NEGRO NO CINEMA BRASILEIRO: A CONSTRUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO NEGRA EM MACUNAÍMA
Edson Lima Araujo, Graduando em Ciências Sociais (DCS/UFS)
edinholimaaraujo2004@gmail.com
O projeto tem como objetivo analisar de que forma se constrói a imagem da população afro-
brasileira no cinema brasileiro a partir do filme “Macunaíma”, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade e lançado em 1969. Ao longo das décadas do século passado, a imagem da
população negra brasileira passou por significativas influências históricas e socioculturais que atingiram a sociedade ao longo do século, como a atuação das teorias raciais com o objetivo de embranquecer a população e até a ideologia da democracia racial, com a clara consequência da construção de uma série contínua de representações carregadas de estereótipos e estigmas com forte teor negativo ao longo do tempo, perpetuando assim a estrutura racial na sociedade brasileira entre o privilégio branco contra as populações negras, indígenas e seus descendentes, e que atingiu as diversas formas culturais e artísticas da sociedade, incluindo o cinema. Com isso, o foco do trabalho será analisar em como esses estereótipos negativos estão presentes na narrativa do filme Macunaíma e discutir a partir de
um olhar antropológico.
FABULAR COM CAIXAS DE SAPATOS: A POTÊNCIA ARQUIVÍSTICA DOS ÁLBUNS FAMILIARES DE MAYARA FERRÃO E LEBOHANG KGANNYE
Luana Campos, Mestranda em Comunicação (PPGCOM/UFS)
Vera Bomfim, Graduanda em Publicidade e Propaganda (DCOS/UFS)
Das festas, encontros de domingo, batizados, aniversários e casamentos, o dispositivo câmera adentra as casas, a fim de registrar e eternizar a memória familiar. O conjunto dessas imagens configura uma espécie de texto imagético que suscita a leitura e representação da identidade daquelas pessoas, um discurso visual que torna solidário o tempo — seja linear ou não — e a memória. Na última década, o campo das ciências humanas e das artes visuais levantaram questões referentes à posse e ao direito da memória fotográfica. A partir das relações de poder que ditavam o acesso ao registro imagético, um conjunto de obras discute a ausência dos álbuns de fotografia no núcleo de famílias afrodescendentes, sobretudo opondo ao esquecimento a perpetuação da memória a partir da materialidade. Impregnada por lacunas iconográficas, essadiscussão favorece a reivindicação das identidades e o reconhecimento do parentesco, especialmente levando em consideração os nomes sem face ou voz, perdidos em meio ao espólio eurocêntrico. Em outras palavras, o presente cenário é marcado pela reconstrução da identidade familiar baseada no afeto, contornando a visão reducionista do arquivo colonial, cuja inscrição reafirma a violência e dificulta processos de visualidade ancestral, tornando necessário o resgate e as fabulações através da imagem. Tomando como ponto de partida as potencialidades críticas da reapropriação de arquivos visuais, este artigo investiga as obras Álbum de Desesquecimentos (2024) e Ke Lefa Laka: Her Story (2012), das artistas visuais Mayara Ferrão e Lebohang Kgannye, como um gesto artístico voltado a narrativas decoloniais de afeto e memória a partir da criação e utilização de arquivos familiares. Interessa-nos analisar de que modo as artistas tensionam as noções de lacunas e vestígios dos registros familiares ao usar da IA e a fotomontagem como ferramenta principal de sua prática.
Palavras-chave: Álbum familiar; Arquivo Fotográfico; Artes Visuais.